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Palavra do Presidente - POR QUE UMA ASSOCIAÇÃO DE IGREJAS

A AIBREB, Associação de Igrejas Batistas Regulares do Brasil, existe há 56 anos, tem experimentado muitas alegrias, mas também enfrentado muitas lutas para se manter, tem superado muitos ataques e respondido a muitos questionamentos. Um deles é quanto ao seu papel e a razão de sua existência. Não há unanimidade entre os obreiros e membros das igrejas sobre o valor de uma associação. Alguns acham que a associação só atrapalha, outros acreditam que se ela não atrapalha também não ajuda. Pensam que não devem nada à associação.

Quais as bases para uma ASSOCIAÇÃO? Por que uma associação de Igrejas? Devem as igrejas se associar? Por que cada uma não faz o seu trabalho de modo independente?

Para responder a estas perguntas vamos olhar para a Igreja Primitiva, a Igreja do Novo Testamento, que, em termos de princípios, deve ser nosso modelo. Será que havia ‘associações’ na Igreja Primitiva? Do tipo que existe hoje evidentemente não (como também não existiam outras coisas que usamos hoje: certos instrumentos musicais, tipos de programação, acampamentos, etc.). Mas, há evidências de uma interdependência entre as igrejas na Igreja Primitiva.

Percebemos que a Igreja de Jerusalém preocupava-se em acompanhar o crescimento do evangelho em outras regiões.  Atos 8.14 nos diz que Pedro e João foram enviados (de modo autorizado) à Samaria, depois que os apóstolos ouviram que os samaritanos tinham abraçado o evangelho, lá eles completaram o trabalho de Filipe. 

Em Atos 11, Pedro dá explicações sobre sua entrada na casa de um gentio. Este texto é interessante devido à reação humilde de Pedro ao zelar pela unidade da Igreja. Pois tanto Pedro era apóstolo, escolhido por Jesus para pastorear a Igreja, sendo autoridade revelacional, como sua ida até Cornélio fora por ordem expressa do Senhor. Mesmo assim, quando foi questionado sobre sua atitude, reagiu dando um relatório em ordem. Como resultado, a Igreja louvou a Deus por esta expansão. 

Um terceiro exemplo da preocupação da Igreja de Jerusalém com outras igrejas aparece em Atos 11.19-22. Quando, após saber do progresso do evangelho em Antioquia, enviou um de seus líderes respeitados e habilitados para examinar a nova situação.

Outra evidência aparece de modo inverso, as igrejas gentílicas preocupam-se com o bem estar material da igreja em Jerusalém.  Em Atos 11.27-30, e 12.25, temos a igreja de Antioquia enviando socorro financeiro aos irmãos da Judéia. Depois de saber da fome que viria ao mundo, estes irmãos decidiram repartir seus recursos com irmãos de outras igrejas, e escolheram Barnabé e Saulo para realizarem esta missão (diakonia) e passarem sua oferta aos líderes da Igreja na Judéia.

Um exemplo semelhante, que demonstra uma cooperação mais estreita entre as igrejas está em Romanos 15.25s  e em 2 Coríntios 8. Em Romanos 15.25, Paulo diz que está indo para Jerusalém para prestar um serviço (diakonia) aos santos.  No verso 26 ele fala de uma atitude da Macedônia e da Acaia, duas regiões onde havia várias igrejas. À luz de Atos, podemos pensar sobre as igrejas de Filipos, Tessalônica, Beréia, Cencréia e Corinto, pelo menos.  Estas igrejas se associaram para um serviço. Tomaram uma decisão, Paulo diz que aprouve, isto é, pareceu bem, acharam que seria algo bom e agradável. A decisão foi de fazer uma coleta (a palavra traduzida para coleta é koinonia, que também pode ser traduzida como associação, comunhão. colaboração, etc.) para os irmãos carentes de Jerusalém. 

No verso 27, Paulo indica a razão para as igrejas daquelas regiões terem considerado que isto era o correto a fazer, pois consideravam-se devedoras á igreja de Jerusalém. Paulo diz que os judeus haviam se associado (koinonew) com os gentios quanto ao que era espiritual, era dever dos gentios prestarem um serviço sagrado e público (leitorgeu) quanto ao carnal ou corpóreo. Que lição estes irmãos podem nos dar, especialmente diante daquelas igrejas que não se julgam devedoras a ninguém! Cada igreja Batista Regular deste país tem uma enorme dívida com as mais antigas, pois em certo sentido, foram estas que possibilitaram que o evangelho chegasse até aquelas.

Paulo trata do mesmo assunto em 2 Coríntios 8. Aqui ele se refere as Igrejas da Macedônia (podemos afirmar a existência de pelo menos três, Filipos, Tessalônica e Beréia), que por iniciativa própria, solicitaram com muita insistência o privilégio de  abraçarem a associação (koinonia) do serviço (diakonia) aos santos. Aqui temos várias igrejas se associando num projeto comum. Paulo faz uma exortação para que a igreja de Corinto tenha a mesma atitude. Nos versos 13 a 15 dá a razão para isto, a busca pela igualdade, definida como as igrejas que têm abundância num determinado momento, devem ajudar as que estão carentes, caso ocorra a inversão da situação, o mesmo deve acontecer para com aquelas. A palavra que é usada para igualdade é derivada da que foi usada em Atos 11.17 para falar do mesmo Espírito que foi dado a todos os crentes. Em 2 Pedro 1.1  para a mesma preciosidade da fé. É nesta esfera, dos que receberam o mesmo Espírito e têm a mesma fé preciosa, que a associação deve ser buscada.

Continuando em 2 Coríntios 8, notamos outras evidências de associação entre as igrejas. Paulo diz que, juntamente com Tito, está enviando um irmão que foi aprovado (verso 18, cujo louvor está espalhado, que também poderia ser traduzido “aprovação” ou “sanção”) por todas as igrejas. E não apenas isto, mas este irmão foi eleito (a palavra originalmente indica a escolha de alguém em assembléia pelo levantar de mãos) pelas igrejas, para ser o companheiro de Paulo neste projeto. Paulo ainda menciona um outro irmão no verso 22, e no verso 23 diz que estes dois irmãos são mensageiros (apóstolos, i.e., representantes autorizados) das igrejas. Note que várias igrejas escolheram e sancionaram alguém.  Temos aqui uma forte indicação de que estas igrejas se associaram de modo até certo ponto formal, para cumprirem um serviço voluntário.

Outras evidências podem ser alistadas, em Atos 15 temos um problema em Antioquia (15.1), mas que é resolvido junto com a igreja de Jerusalém (15.2). A carta com as decisões é endereçada não apenas para Antioquia, mas inclui também as igrejas da Síria e Cilícia (15.23). Esta mesma carta é apresentada por Paulo nas igrejas que havia fundado (15.41 e 16.4). Paulo escreve uma carta aos irmãos em Roma e manda nesta carta saudações a pelos menos três igrejas que se reuniam naquela cidade (Romanos 16.3-5, 14,15),  diz também que todas as igrejas dos gentios enviam saudações (16.4,16). Já em Colossenses 4.16, fala de duas cartas: uma para a igreja de Colossos e outra para a de Laodicéia; e que estas, depois de lidas nas respectivas igrejas, deveriam ser trocadas.

Poderíamos ainda alistar as cartas gerais, escritas e enviadas para várias igrejas (Tiago, 1a Pedro), o livro de Apocalipse, que foi originalmente uma carta circular enviada as sete igrejas da Ásia. É interessante neste livro, pois apesar de cada igreja ter uma carta específica, que tratava de virtudes e problemas peculiares daquela igreja, ainda assim esta carta seria lida por todas as outras, e o Espírito incentiva cada Igreja a ouvir (Ap. 2.7,11,17, etc.)

Diante destes exemplos, podemos afirmar que as igrejas locais do Novo Testamento não eram ilhas isoladas, mas que estavam ligadas, por pertencerem ao mesmo Corpo, serem dirigidas pelo mesmo Senhor, compartilharem do mesmo Espírito e terem a mesma fé. Procuravam demonstrar isto ajudando umas as outras, associando-se em projetos comuns que traziam louvor a Deus.

A história da Igreja confirma que este foi o procedimento das igrejas cristãs, mesmo depois da morte dos apóstolos. Além disto, o Cristianismo é coletivo, é social, no sentido de que é para ser vivido em conjunto. Adoramos um Deus que é Trino, que criou o homem para viver em comunidade e que forma um povo para morar eternamente com Ele.

Por causa disto, mesmo com os problemas e discórdias devemos nos associar. É apropriado nos associarmos, pois somos devedores aos servos do passado, eles investiram tempo, recursos, esforço, para que estivéssemos aqui. É adequado associarmos, pois somos devedores à presente geração, para quem podemos exemplificar e testemunhar unidade, ajuda mútua, paciência para tratar as discordâncias, esperança na graça de Deus em conduzir outros ao entendimento que agora temos e julgamos correto. É conveniente associarmos, pois somos devedores aos que virão, deixando para eles uma obra melhor, mais aperfeiçoada, maior da que nos foi passada.

Em suma, cooperar com a AIBREB é quitar uma dívida com o nosso passado, com o nosso presente e com o nosso futuro.

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